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Economia
da Cultura - Um setor estratégico para o país.
A
produção, a circulação e o consumo de bens e serviços culturais
começaram a ser percebidos como um segmento de peso na economia das
nações já no pós-guerra. Mas foi apenas na década de 1970 que se
aprofundou o interesse pelo setor e a Economia da Cultura passou a
mobilizar pesquisadores em algumas universidades. Na década de 1990,
ganha espaço nos órgãos internacionais de cooperação, começando a ser
entendida como um vetor de desenvolvimento. Progressivamente órgãos
como BID, PNUD, OEA, Unesco passam a incluir questões relacionadas à
Economia da Cultura em seu escopo de ação.
O
Banco Mundial estima que a Economia da Cultura responda por 7% do PIB
mundial (2003). Nos EUA a cultura é responsável por 7,7% do PIB, por
4% da força de trabalho e os produtos culturais são o principal item
de exportação do país (2001). Na Inglaterra, corresponde a 8,2% do PIB
(2004), emprega 6,4% da força de trabalho e cresce 8% ao ano desde
1997.
A
Economia da Cultura, ao lado da Economia do Conhecimento (ou da
Informação), integra o que se convencionou chamar de Economia Nova,
dado que seu modo de produção e de circulação de bens e serviços é
altamente impactado pelas novas tecnologias, é baseado em criação e
não se amolda aos paradigmas da economia industrial clássica. O modelo
da Economia da Cultura tende a ter a inovação e a adaptação às
mudanças como aspectos a considerar em primeiro plano. Nesses setores
a capacidade criativa tem mais peso que o porte do capital.
As novas tecnologias, sobretudo a digital, criaram novos produtos,
novas formas de produzir, de divulgar, de distribuir e de consumir,
conseqüentemente, criaram novos modelos de negócio e novas formas de
competição por mercados.
A
Economia da Cultura é hoje o setor de maior dinamismo na economia
mundial, tem registrado crescimento de 6,3% ao ano, enquanto o
conjunto da economia cresce a 5,7%. A Economia da Cultura integra o
segmento de serviços e lazer, cuja projeção de crescimento é superior
à de qualquer outro, estima-se que cresça 10% ao ano na próxima década1.
Esse potencial de crescimento é bastante elástico, pois o setor
depende pouco de recursos esgotáveis, já que seu insumo básico é a
criação artística ou intelectual e a inovação.
Além, de seu dinamismo, há um conjunto de características que vem
conferindo à Economia da Cultura status de setor estratégico na pauta
das estratégias de modernização e desenvolvimento:
1. a geração de produtos
com alto valor agregado, cujo valor de venda é em grande medida arbitrável pelo criador;
2. a alta empregabilidade
e a diversidade de empregos gerados em todos os níveis, com
remuneração acima da média dos demais;
3. o baixo impacto
ambiental;
4. seu impacto positivo
sobre outros segmentos da economia, como no caso da relação direta
entre a produção cultural e a produção e venda de aparelhos
eletrônicos (tv, som, computadores etc.) que dependem da veiculação de
conteúdo;
5. suas externalidades
sociais e políticas são robustas. Os bens e serviços culturais
carregam informação, universos simbólicos, modos de vida e
identidades; portanto, seu consumo tem um efeito que abrange
entretenimento, informação, educação e comportamento. Desse modo, a
exportação de bens e serviços culturais tem impacto na imagem do país
e na sua inserção internacional;
6. o fato do
desenvolvimento econômico desse setor estar fortemente vinculado ao
desenvolvimento social, seja pelo seu potencial altamente inclusivo,
seja pelo desenvolvimento humano inerente à produção e à fruição de
cultura;
7. o potencial de
promover a inserção soberana e qualificada dos países no processo de
globalização.
Diante de tantos atributos, criar mecanismos diferenciados e adequados
de desenvolvimento e fomento da Economia da Cultura, que é baseada em
grande parte em ativos intangíveis, é um desafio a ser enfrentado de
imediato.
Afora o caso paradigmático dos EUA, que já não requer ação estratégica
do Estado, podemos citar o exemplo da Inglaterra, que conta com um
ministério das indústrias criativas, independente do Ministério da
Cultura, como marco da crescente importância que o setor vem
adquirindo nas economias nacionais. Do mesmo modo, já começam a se
estabelecer programas em estados e, mesmo, em municípios, que
identificaram vocações locais capazes de gerar dinâmica econômica.
A ECONOMIA DA CULTURA
NO BRASIL
Nosso país possui evidente vocação para tornar a Economia da Cultura
um vetor de desenvolvimento, baseado na sua diversidade cultural e na
sua alta capacidade criativa.
O
Brasil tem importantes diferenciais competitivos nesse setor:
1. a facilidade de
absorção de novas tecnologias;
2. a criatividade e a
vocação para inovação;
3. a disponibilidade de
profissionais de alto nível em todos os segmentos da produção
cultural;
4. a alta qualidade e a
boa aceitação de nossos produtos culturais em diferentes mercados.
Além disso, o Brasil possui um mercado interno muito expressivo, onde
a produção cultural nacional tem ampla primazia sobre a estrangeira. A
música e o conteúdo de TV são exemplos robustos, em que o predomínio
chega a 80%.
A
conjuntura externa também é amplamente favorável, o Brasil está na
moda e precisa consolidar os mercados conquistados e ampliar a
presença de sua produção em novos mercados. É preciso que a cultura
integre de forma vigorosa a pauta de promoção de exportações.
A
participação da cultura nas atividades econômicas do país já é
bastante expressiva, como mostram os números que começam a ser
sistematicamente coletados pelo IBGE a partir do convênio firmado com
o Ministério da Cultura, que também prevê a construção dos indicadores
da Economia da Cultura e que deverá culminar no estabelecimento do PIB
da Cultura.
Atuam no país 320 mil empresas voltadas à produção cultural,
que geram 1,6 milhão de empregos formais. Ou seja, as empresas
da cultura representam 5,7% do total de empresas no país e são
responsáveis por 4% dos postos de trabalho.
O
salário médio mensal pago pelo setor da cultura é de 5,1
salários mínimos, equivalente à média da indústria, e 47%
superior à média nacional.
A
segunda pesquisa lançada pelo convênio MinC-IBGE, o anexo Cultura à
Pesquisa de Informações Básicas Municipais (a Munic 2006);
levantou dados relativos à presença da cultura nas 5.564 cidades
brasileiras. O investimento público dos municípios em cultura ainda é
bastante restrito, não ultrapassa a média de 0,9% do orçamento total
das prefeituras (proporção praticamente idêntica ao orçamento do MinC
frente ao orçamento da União). Recife atualmente é uma das poucas
cidades onde esse índice é mais elevado, chega próximo ao recomendado
pela Unesco (2%).
A
pesquisa aponta números relativos a equipamentos e ações culturais. A
presença de lojas de discos e dvds cresceu 74% em sete anos; o número
de salas de cinema cresceu 20%, apesar delas estarem presentes em
apenas 8,7% das cidades; já as videolocadoras estão em 82% das cidades
brasileiras. O número de salas de espetáculo cresceu 55%; o de museus
41% e o de bibliotecas 17%. As rádios comunitárias estão em 49% dos
municípios, superando as fms (em 34%) e as ams (em 21%); e a tv está
em 95,2% dos municípios.
A
atividade cultural mais presente nos municípios é o artesanato
(64,3%), seguida pela dança (56%), bandas (53%) e a capoeira (49%),
esta última além da expressiva presença no país é, ao lado da música,
um dos segmentos que maior interesse despertam no exterior. Os
festivais apresentam-se como a mais dinâmica forma de difusão cultural
no país: 49% das cidades contam com festival de cultura popular, 39%
com festival de música, 36% com festival de dança, 26% com festival de
teatro e 10% com festival de cinema.
Os números confirmam que um dos principais gargalos no desenvolvimento
da Economia da Cultura é a concentração e baixa capilaridade dos
equipamentos culturais, que dificulta a circulação e o acesso a
produtos e serviços. Dificuldade que é parcialmente suprida pelos
festivais.
OS DESAFIOS
O
desenvolvimento da economia da cultura exige mecanismos diversificados
de fomento, diferentes da política de apoio via leis de incentivo
fiscal. É preciso formular ações integradas e contínuas que enfrentem
os principais gargalos do setor.
Implantar uma estratégia para esse setor - envolvendo financiamento,
legislação, capacitação e regulação - é um desafio imediato se
quisermos aproveitar oportunidades geradas pelas novas tecnologias que
estão alterando modelos de negócio e formas de acesso a mercados. Esse
desafio envolve Estado, entidades setoriais e iniciativa privada e
requer:
1. implantar agendas para
o desenvolvimento dos segmentos mais dinâmicos e estratégicos;
2. aprofundar o
conhecimento sobre os segmentos para subsidiar as políticas de fomento
e estimular o planejamento estratégico de empresas e de políticas
públicas. Isso envolve a construção de indicadores, a coleta de dados
primários, os diagnósticos setoriais, o estudo das cadeias produtivas
e dos modelos de negócio, o mapeamento dos empreendedores;
3. capacitar empresas e
produtores, sobretudo no que diz respeito aos novos modelos de
negócio, à inserção no mercado (nacional e internacional) e à gestão
de propriedade intelectual (essa uma absoluta prioridade face os
riscos de desnacionalização de propriedade intelectual);
4. identificar vocações
regionais e oportunidades no mercado interno e externo, que ajudem a
definir o foco prioritário das ações;
5. capilarizar e
dinamizar a distribuição, a circulação e a divulgação de produtos e
serviços culturais, já que este tripé é hoje o maior gargalo no
desenvolvimento de todos os segmentos da Economia da Cultura;
6. enfrentar a
necessidade de atualizar a legislação pertinente ao setor e
identificar as necessidades de regulação.
Fonte: Paula Porta
Assessora especial do Ministro da Cultura e Coordenadora do Prodec
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